
Há alguma semanas Dodô Azevedo publicou em seu site um texto comentando sobre o “In Utero” e o mix feito por Steve Albini que vazou. A mixagem seria o “verdadeiro disco”. Fora o texto aproveitou e já linkou o bootleg para download - ótimo presente de um cara que conversou com Cobain.
Pelo twitter dava para acompanhar a empolgação de muitos fãs da banda com a novidade - eu incluso. Mas enquanto escutava as músicas e lia o texto fiquei com muitas dúvidas. As informações sobre a polêmica recusa da gravadora com o trabalho original de Albini e Cobain e as alterações feitas estavam desencontradas demais.
Por que o disco lançado em setembro de 93 tem assinatura de Steve Albini em todas as faixas, execeto em “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” que tem a remixagem de Scott Litt, e o próprio declara que a versão veiculada em 93 é a que a gravadora e a banda quiseram? Quem refez o disco?
Dodô no texto joga toda a responsabilidade em Scott Litt. Se fosse assim ele não teria que assinar o trabalho todo? E, afinal, de que lado estava Kurt Cobain?
Bem, Scott Litt não assinou o resto porque não fez mais nada. O que veio a público é o trabalho de Albini sim. Uma matéria da Revista Circus escrita por Ben Mothersole e publicada praticamente um mês depois do lançamento do álbum esclarece a história na versão de Kurt.
O disco não foi remixado. Cobain conta na matéria que mais uma remixagem mataria a ambientação e o trabalho feito nas sessões com Albini. Porém na hora de masterizar tiveram a idéia de aumentar os vocais e o baixo. O trio tinha ficado semanas escutando o álbum e procurando o defeito que estava incomodando. Contrariando a lenda, a mudança foi decisão de Kurt, Krist e Dave. Decisão da banda e uma decisão artística. O resultado não agradava eles então tentaram corrigir.
A história de pressão da gravadora se limita as duas faixas remixadas por Scott Litt. O Nirvana só cedeu nisso. Dá para imaginar que o pensamento da gravadora fosse algo como “dane-se o álbum e vamos garantir dois singles de sucesso”. Se eles pensaram ou não nessa opção é um exercício de imaginação. O fato é que eles realmente só lançaram aquelas duas músicas como single na época.
Mas a confusão é tão grande que até no All Music, que é um site muito confiável, uma resenha credita a mixagem de “Heart-Shaped Box” a Steve Albini e ainda afirma que a força do baixo e bateria na faixa são coisa dele, quando exatamente essa foi retrabalhada por Litt. O erro tá publicado lá.
Se o All Music vacilou, resta uma fonte segura: Marcelo Orozco
Marcelo é o autor de “Fragmentos de uma Autobiografia”, um dos melhores trabalhos sobre a vida e obra de Cobain. Via twitter Orozco foi claro, Albini recusa tanto o álbum que foi lançado quanto qualquer bootleg. Para Steve isso é apenas alguma fita que foi perdida no processo de gravação. E apesar do alarde recente a bootleg já circulava desde 2008.
Os sinal de que seria mesmo material retirado de uma fita velha foi percebido por muitos. Chiados e as bruscas alterações do volume lembram a audição de um K-7 velho - mp3 não tira esse “prazer”, vejam só, saudosistas. Mas Orozco reforçou: vale escutar o “mix Albini”, existem diferenças.
E realmente está ali uma versão crua do disco, os vocais estão em um volume bem mais baixo e o instrumental mais ruidoso. Um exemplo nítido de como a mixagem e volume fazem toda a diferença. No refrão de “Heart-Shaped Box” mixado por Scott Litt o vocal de Cobain cria um gancho muito marcante na música. É um berro, mas gruda - um truque do pop, o tal do “Nevermind 2”. Na versão sem polimento o instrumental “sufoca” o berro e tira a força do refrão. Isso para ficar em só um exemplo de como a “versão da banda” tem seus truques. Ainda que seja um disco barulhento e sujo demais para a gravadora que desejava mais hits.
Sobre “In Utero” concordo com Ben Mothersole em sua matéria: “Não é um disco difícil, nem anti-comercial”. A dificuldade em torno dele parece mais resultado do acúmulo de lendas e boatos multiplicado pelo suícidio de Kurt poucos meses depois. Na tarefa de valorizar o mito ficou a imagem do Cobain indie ao lado de Albini contra as majors. Ilusão.
As mudanças forma ordem de Kurt. E a biografia de Charles R. Cross,” Mais pesado que o céu”, conclui que ele ficou satisfeito e considerava “In Utero” o seu grande trabalho.
O que teria acontecido se…
Dodô imagina que Cobain estaria vivo em tempos de Facebook, MySpace. Não acho. Esses meios não eliminariam a grande dúvida dele. Como Marcelo Orozco define em seu livro, no capitulo dedicado ao álbum, o que derrubou Cobain foi a escolha entra fazer algo bom e seguir a vida ou sabotar tudo e desaparecer.
E Kurt sempre teve esse complexo, uma série de atitudes para vender bem e garantir dinheiro e outras para fugir do mainstream. Como Ricardo Alexandre resume bem, em uma resenha sobre o show de 93 no Brasil, parecia que Kurt botava mesmo fé na luta honestidade versus modinha. A opção em produzir com Albini e depois mexer no disco insatisfeito é só mais uma dúvidas que derrubavam Cobain no fimzinho daquele 93.